Quando eu era pequena, achava que quando crescesse, iria fugir com um circo que passasse pela cidade procurando novas pessoas para a trupe. Afinal, meu apelido era “filhote de gnomo”, e eu acreditava que tal era uma dádiva para poucos. Acontece que eu fui crescendo, e junto à isto, fui deixando de ser um filhote de gnomo, e me tornei uma observadora e vivente do mundo, de uma forma que eu jamais imaginava, quando pensava em fugir com a trupe... Foram aparecendo tantos detalhes nos meus dias, tantas pessoas, tantas descobertas... e todas enormes! E eu ali, toda pequenininha tentando descobrir qual seria meu caminho quando então estivesse do tamanho de toda aquela gente. Uma coisa eu sabia: não queria ser adulta. Pelo menos não da forma que via as pessoas sendo. Todos gritavam muito, colhiam poucas flores, e, sobretudo, sorriam muito pouco. Era assim na minha casa. Mas eu não ligava. Vivia aprontando situações para fazer com que todos pudessem sentir o enlevo da vida como eu sentia, e é claro que não tinha consciência de nada disso,mas o fazia.
Foi então que percebi que minha cabeça não estava mais dentro do espelho do quarto. Conseguia enxergar as perninhas, fininhas, o corpo magrinho, e um pedacinho do queixo. Mas minha cabeça havia ido embora, para além do espelho... Foi então que eu senti que tinha passado por um processo de mudança, e que a partir daquele dia, tinha deixado de ser um gnomo...e como era triste! Tudo que eu tinha até então, era meu tamanho e meus sonhos... se eu começasse a crescer, me tornaria apenas mais uma!
De repente, era como se eu tivesse perdido todo aquele gosto de descobertas. Tinham me incluído em um mundo que eu não queria participar. Era frio, pesado. As pessoas não brincavam mais, brigavam. E eu fui fazendo parte disso, e aos poucos, fui deixando de colocar flores na orelha para enfeitar o rosto, de rabiscar papéis acreditando nos desenhos, de cortar roupas para vestir o mundo. Eu havia me tornado adulta,então? Não.
Comecei a me tornar compulsiva por tudo. E queria tudo, e sempre ao mesmo tempo. Queria ser patinadora, dançarina, musicista e poetisa. Mas queria naquele instante,e mais, queria ser a melhor. Mas eu desistia, talvez pela falta de espaço para voltar a acreditar nas minhas flores. É. Foi exatamente isso. Crescer me fez ter que assumir papéis que eu não queria, e ninguém me perguntou isso. Simplesmente me mandaram estar ali. E sorrindo sempre. E nem sempre era o que eu queria!
Posso dizer que comecei a me fechar para o mundo. Assim pensei por muito tempo, mas é claro que não foi o que aconteceu. Posso ter me fechado,sim. Mas foi para tudo o que estavam tentando me fazer ingerir e eu não queria. Eu me protegi, para que por dentro,continuasse a construir meus castelos, e dentro de mim eles podiam desmoronar, que eu mesma os construía novamente até que pudessem se sustentar. E foi o que aconteceu.
Descobri que a poesia das coisas era muito mais bonita que tudo o que tentavam sujar. Também percebi que eu não precisava impedir o mundo de ver os meus castelos,até porque eles eram parte do mundo! Foi então que eu descobri, dentro de tudo o que desmoronou, nasceu, renasceu, que existia no meu rosto a mesma flor que eu enfeitava a minha vida. E assim a deixei colorir todos os meus caminhos que começaram a se trilhar. Desse meu caminho eu não desisti, aliás, eu insisti. E insisto. E simplesmente porque é a vida mais linda que eu podia viver...
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
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Um comentário:
Minha Amélia!!!
=)
Louca e puta com a falta de vida!!!
=***
Sdds de ter alguem assim tão parecida e tão diferente de mim por perto!!!
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